Imigração nos Estados Unidos do século XIX: rumo à pobreza

Imigração nos Estados Unidos do século XIX: rumo à pobreza

Foto: Jacob Riis / Museum of the City of New York

Crianças dormindo na Mulberry Street, ca. 1890. Foto: Jacob Riis / Museum of the City of New York

Anualmente, milhares deles desciam na costa leste dos Estados Unidos. Poucos saíam de seu país de origem por livre e espontânea vontade. Isso porque, foi o desespero, a fome e a pobreza que impeliram a imigração nos Estados Unidos durante o século XIX e século XX, levando imigrantes sonhadores novamente para a miséria.

Ao longo do século XIX, a Revolução Industrial se estabeleceu em parte da Europa, especialmente na Inglaterra. Contudo, a ampliação fabril não trouxe a libertação financeira e a divisão por igual da bonança para a maioria da população, ao contrário, muitos trabalhavam e poucos recebiam. A pobreza ainda era pungente. Juntamente à Revolução Industrial, em meados de 1840, a Irlanda passou por uma onda de fome, precarizando ainda mais a vida do povo.

Foto: Jacob A. Riis, © Bettmann/CORBIS

Cortiço em Nova Iorque, ca. 1890. Foto: Jacob A. Riis, © Bettmann/CORBIS

Foto: Jacob A. Riis, © Bettmann/CORBIS

Lower East Side de Manhattan, ca. 1890. Foto: Jacob A. Riis, © Bettmann/CORBIS

Desesperadas por liberdade, trabalho ou ambos, inúmeras pessoas embarcaram nos navios em busca da tão falada terra das oportunidades, cidades maravilhosas dos Estados Unidos, onde o preconceito, a intolerância e pobreza não existiam e o solo ainda era virgem do uso do arado.

Após tempestades enfrentadas em alto mar por navios precários, ainda chegavam esperançosas em conseguir o tão sonhado visto; a passagem para a felicidade e fartura. Contudo, ao desembarcarem nos portos, a saga dos imigrantes apenas entrava em sua fase mais difícil.

Foto: Jacob A. Riis, © Bettmann/CORBIS

Normalmente, aos imigrantes que chegavam à cidade restava morar em um quartinho de alguma favela ou cortiço. Muitas vezes nesse único quartinho de um cômodo só, várias pessoas se apinhavam. Na foto, uma moradora de uma das favelas de Nova Iorque posa para a foto, ca. 1890. Foto: Jacob A. Riis, © Bettmann/CORBIS

Foto: Jacob A. Riis / Preus Museum

A moradia desse feirante era um beco onde montava sua cama sobre dois barris. Foto: Jacob A. Riis / Preus Museum.

Antes de poderem adentrar em território norte americano, era necessário passar por uma rígida inspeção por fiscais de saúde. Bocas eram inspecionadas e cabelos revistados para ver se não havia um único sinal da existência de piolhos ou outras doenças. Depois disso tudo, precisavam esperar pacientemente, em uma longa fila, a aprovação ou a rejeição de seus vistos.

Uma vez rejeitados, eram deportados de volta para a velha realidade e para o desespero anterior. Aqueles que conseguiam a desejada nova cidadania, encontravam uma realidade diferente daquela divulgada nas propagandas maravilhosas do novo mundo: a pobreza.

Ao contrário do que se acreditava e do que ainda hoje é mostrado ao grande público, cidades como Nova Iorque eram repletas de favelas e cortiços para onde uma massa nova imigrante anualmente se deslocava, engrossando as estatísticas da miséria.

Foto: Jacob A. Riis / Preus Museum

Mulheres dormem todas juntas em um quartinho. Para se protegerem do frio, há apenas o forno ao centro da imagem, ca. 1890. Foto: Jacob A. Riis / Preus Museum

Foto: Jacob A. Riis, ca. 1890.

Foto: Jacob A. Riis, ca. 1890.

Ao final do século XIX, as classes abastadas de Nova Iorque e norte americanas ainda desconheciam quase por completo as condições precárias em que se encontravam os imigrantes e pobres nova iorquinos. A pobreza somente foi desnudada quando Jacob Riis, um imigrante dinamarquês pobre e sem trabalho, resolveu documentar e denunciar o descaso que se encontrava uma boa parte da população no Lower East Side de Manhattan.

Jacob Riis inclusive é visto como um dos precursores do fotojornalismo de denúncia estadunidense, pois através de fotografias, gravuras e estatísticas levantadas junto à população, ele conseguiu juntar um material nunca antes visto a respeito da miséria invisibilizada. Riis acreditava que as condições desumanas em que muitos viviam eram fruto de descaso e desconhecimento das autoridades e das classes abastadas.

Foto: Jacob A. Riis / Preus Museum.

Escola montada em um cortiço, ca. 1890. Foto: Jacob A. Riis / Preus Museum.

Foto: Jacob A. Riis, © Bettmann/CORBIS

Sapateiro trabalhando em quartinho alugado que servia como moradia também, 1895-1896. Foto: Jacob A. Riis, © Bettmann/CORBIS

Assim, o imigrante dinamarquês imaginava que se conseguisse mostrar a realidade, poderia motivar pessoas importantes a erradicar a pobreza. Então, em 1889, Jacob escreveu um artigo expondo algumas das duras condições das favelas e cortiços de Nova Iorque, que foi publicado com uma série de suas fotografias na Revista Scribner.

Devido às imagens perturbadoras, outros jornais da cidade haviam se recusado a publicá-lo também. No entanto, após o sucesso do artigo de Jacob Riis na revista Scribner, o imigrante deu início à criação de um livro denúncia chamado “How the Other Half Lives: Studies among the Tenements of New York” (tradução livre: Como a outra metade vive: estudos acerca dos cortiços de Nova Iorque) que foi publicado em 1890.

Foto: Jacob A. Riis, © Bettmann/CORBIS

Família pobre no Lower East Side, 1888. Foto: Jacob A. Riis, © Bettmann/CORBIS

Foto: Jacob A. Riis.

Foto: Jacob A. Riis.

O título do livro é uma referência a uma frase do escritor francês François Rabelais, que escreveu a frase famosa: “metade do mundo não sabe como vive a outra metade” (“la moytié du monde ne sait l’autre comment vit”).

Em cada página, Riis denunciava as condições precárias de vida, o trabalho infantil, a miséria, fome, doença e morte a que os imigrantes e pobres estavam fadados a ter na tal terra das oportunidades. Jacob finalizava o livro sugerindo uma forma de combate à pobreza, em que dizia que as classes abastadas não deveriam apenas buscar o lucro e o dinheiro, mas deveriam ter o valor moral de buscar o bem estar de todas as pessoas.

Foto: Jacob A. Riis, © Bettmann/CORBIS

Homem em sua casa em meio a um cortiço, ca. 1890. Foto: Jacob A. Riis, © Bettmann/CORBIS

Foto: Jacob A. Riss.

Favela de Nova Iorque, ca. 1890. Foto: Jacob A. Riis.

Como resultado, “Como a outra metade vive: estudos acerca dos cortiços de Nova Iorque” fez com que as autoridades buscassem melhorar as condições de vida da população; cortiços foram derrubados, sistemas de esgotos foram ampliados, escolas foram construídas etc.

Contudo, por muitas décadas a pobreza ainda se fez presente, escondida dos holofotes das propagandas do sonho de vida americano. Ainda na década de 1960, novamente uma liga de fotógrafos se juntou para denunciar a miséria estadunidense invisível aos olhos do mundo. Atualmente, com a ampliação da informação e das mídias alternativas, as realidades sociais andam mais transparentes e há uma divulgação maior da vida de milhares que ainda se encontram abaixo da linha de pobreza nos Estados Unidos.

Veja mais imagens abaixo:

Menino trabalhando em uma fábrica, ca. 1890. Foto: Jacob A. Riis.

Um apartamento com um pouco melhor de condições. Poucos imigrantes e nova iorquinos pobres tinham condições de pagar o aluguel de um apartamento um pouco menos precário como o da foto. Foto: Jacob A. Riis.

Foto: Jacob A. Riis

Foto: Jacob A. Riis.

Referências:
– YAPP, Nick. “1900s: Decades of the 20th Century”. GettyImages. Könemann, 2001.
– STAMP, Jimmy. “Pioneering Social Reformer Jacob Riis Revealed ‘How The Other Half Lives‘ in America. Smithsonian Magazine, 2014.
– KIRSCH, Adam. “How Jacob Riis Lived: Tom Buk-Swienty’s ‘The Other Half’“. The Sun, 2008.
Imigração nos Estados Unidos do século XIX: rumo à pobreza

Os fotógrafos com consciência social

"À sombra do Capitólio". Foto: © 1998 Arizona Board of Regents, Center for Creative Photography.

“À sombra do Capitólio”, de 1948, é uma fotografia que mostra o contraste entre a riqueza da capital política do país com a falta de condição de vida da população que vivia nos guetos ao redor. Foto: © 1998 Arizona Board of Regents, Center for Creative Photography.

Durante a década de 1930, quando a Grande Depressão ainda se fazia presente na sociedade estadunidense e houve a explosão de revistas fotojornalísticas como a Life, foi formada a New York League (NYL), a liga dos fotógrafos com consciência social.

A partir da junção dos trabalhos de fotógrafos renomados e outros iniciantes na área, o objetivo da recém criada liga era documentar a injustiça social presente nos Estados Unidos. Membros como Lewis Hine, Paul Strand, WeeGee, Lisette Model, W. Eugene Smith e Aaron Siskind fizeram parte da NYL, enriquecendo ainda mais o projeto artístico de crítica social.

Com o tempo, uma série de imagens revelou toda uma vida cotidiana à margem dos holofotes e dos interesses da sociedade. Em 1947, os trabalhos da New York League acabaram entrando para best home remedies for bladder infection | ohnerezeptfreikaufbladder infection home remedies … even when home remedies don’t suffice on their own they should be used to support an antibiotic treatment, … a lista negra do governo McCarthy, acusada de atividades comunistas. Devido à pressão política, a liga acabou se desfazendo em 1951.

Entretanto, não há uma única foto da NYL que não tenha uma mistura de trabalho artístico e alguma crítica social. Abaixo seguem algumas fotos:

Com cartazes carregando as palavras “doença”, “morte, “pobreza”, “crime” como produtos da favela, “Slums Must Go! May Day Parade” é uma crítica ao descaso do governo em relação às pessoas que viviam em situação de extrema pobreza nas favelas de Nova Iorque. em 1936. Foto: © Joe Schwartz., Nova Iorque, c. 1936. Columbus Museum of Art, Ohio, Photo League Collection, Museum Purchase with funds provided by Elizabeth M. Ross, the Derby Fund, John S. and Catherine Chapin Kobacker, and the Friends of the Photo League.

“Shout Freedom”, Charlotte, Carolina do Norte, c. 1948. Foto: © Estate of Rosalie Gwathmey / Licensed by VAGA, New York, NY.

“Lower Eastside Facade”, 1947. Foto: © Erika Stone. Gelatina de Prata, 1947. Columbus Museum of Art, Ohio, Photo League Collection, Museum Purchase with funds provided by Elizabeth M. Ross, the Derby Fund, John S. and Catherine Chapin Kobacker, and the Friends of the Photo League.

Referências:
– “Where Do We Go From Here?“. The New York Public Library’s Online Exhibition Archive.
– ROSENBERG, Karen. “Artists Equipped With a Social Conscience“. The New York Times, 2011.
Imigração nos Estados Unidos do século XIX: rumo à pobreza

Morro da Providência: a primeira favela do Brasil

Com a criação do Morro da Providência, juntamente com o Bota Abaixo de Pereira Passos, as favelas no Rio de Janeiro começaram a se alastrar.

A primeira favela do Brasil, o Morro da Favela (hoje, Morro da Providência), Rio de Janeiro.

O termo favela inicialmente referia-se, no século XIX, a uma árvore muito comum na Bahia. O governo havia prometido aos soldados do Rio de Janeiro que estavam na Guerra de Canudos (1895 – 1896) entregar-lhes residências caso saíssem vitoriosos do conflito.

Ao retornarem em 1897 e verem a promessa não ser cumprida, os soldados se apropriaram da região de um morro que passou, a partir daí, a ser chamado de Morro da Providência, em referência à providência tomada pelos soldados.

Depois de renomearem como “Morro da Favela”, em referência à árvore arbustiva nativa da localidade onde ocorreu a vitória contra os rebeldes de Canudos, foi criada a primeira “favela” brasileira.

A intensificação desse tipo de moradia e da favela do Morro da Providência se deu no início do século XX, durante a gestão do prefeito Francisco Pereira Passos. Em sua gestão, Pereira Passos colocou em prática o chamado Bota Abaixo, processo responsável pela demolição de centenas de prédios de sobrados nas ruas centrais da cidade para dar lugar à abertura da sua principal avenida: a Avenida Central (atual avenida Rio Branco).

A população pobre que morava nesses velhos casarões, deslocada à força, se fixou nos morros próximos, criando as demais favelas da cidade e aumentando o contingente populacional do Morro da Favela. No fim do ano de 1910, o morro da Favela era considerado o lugar mais violento do Rio de Janeiro.

O nome favela estendeu-se a outros morros e, na década de 1920, as ocupações de colinas com barracos e casebres também passaram a ser conhecidas como favelas.

Referências:
– KOSSOY, Boris. Um olhar sobre o Brasil: A fotografia na construção da imagem da nação (1833 – 2003). 1° edição. São Paulo: Fundación Mapfre e Editora Objetiva, 2012.
– “Origem do termo ‘favela’”. Rio On Watch.
Aldeias do mal. Revista de História da Biblioteca Nacional, 1 de outubro de 2007.
Contribuição para o debate atual sobre as favelas do Rio. Portal Vitruvius, 3 de outubro de 2005.
– “Bota Abaixo” cria as primeiras favelas.
– “O avô das favelas“. Favela Tem Memória.
A grande seca do Nordeste

A grande seca do Nordeste

Uma criança magra pela fome que fora causa pela grande seca.

Foto de uma das vítimas da Grande Seca, Ceará, 1878. Foto de Joaquim Antônio Correia, “Vítimas da Grande Seca”, Albúmen, Carte de Visite, 9 X 5,6 cm, Ceará, CA. 1878. Acervo da Fundação Biblioteca Nacional – Brasil.

Das grandes secas que assolaram o Brasil, uma das mais graves e lembradas foi aquela que compreendeu os anos de 1877 à 1879, ficando conhecida como a grande seca do Nordeste. Foram quase três anos seguidos sem chuvas, com perda de plantações, mortes de rebanhos e miséria extrema. A situação foi tão desesperadora, que famílias inteiras se viram obrigadas a migrar para outros estados, promovendo uma onda de imigrações.

O cenário ficou cada vez mais caótico, principalmente quando os retirantes chegaram em outras cidades e estados. Devido à miséria extrema das pessoas que chegavam, os moradores locais temiam saques no comércio e armazéns. Além disso, as cidades para as quais as vítimas da seca se dirigiam começaram a ficar cada vez mais apinhadas de flagelados. Fortaleza, por exemplo, converteu-se na capital do desespero. De 21 mil habitantes pelo censo de 1872 passaram a ter 130 mil.

Somando-se ao quadro caótico, os rebanhos de animais sobreviventes sucumbiram diante da ação de zoonoses, furtos, fome e sede. A flora e a fauna da região praticamente desapareceram. Por fim, para completar o quadro de tragédia, houve um surto de varíola, dizimando milhares de pessoas. Finalmente o governo imperial enviou ao Nordeste uma comissão de engenheiros para a perfuração de poços, construção de estradas de ferro e armazenamentos de água, para assim resolver o grande problema da seca.

Vítimas das secas de 1877/1878, no Ceará - Brasil. Foto: autor desconhecido, Biblioteca Nacional.

Vítimas das secas de 1877/1878, no Ceará – Brasil. Foto: autor desconhecido, Biblioteca Nacional.

Curiosidade:

Calcula-se que 500 mil pessoas morreram por causa da seca, em que o Estado mais atingido foi Ceará. O imperador dom Pedro II foi ao Nordeste e prometeu vender “até a última joia da Coroa” para amenizar o sofrimento dos súditos da região. Não vendeu, porém enviou engenheiros para a construção de poços.

Alguns anos depois da primeira grande seca no século XIX, em 1915 um novo episódio assolou o sertão nordestino. Mais uma vez, a nova seca fez com que diversos nordestinos migrassem para as grandes cidades, porém, ao contrário do primeiro episódio, o governo cearense resolveu se precaver de uma maneira desumana. Desta feita, o governo criou os primeiros currais humanos, campos de concentração em regiões separadas por arames farpados e vigiadas 24 horas por dia por soldados para confinar as almas nordestinas retirantes castigadas pela seca.

Notícia sobre o Campo de Concentração dos Flagelados, publicada no Jornal O POVO, em 16/04/1932

Notícia sobre o Campo de Concentração dos Flagelados, publicada no Jornal O POVO, em 16/04/1932.

A oeste da cidade de Fortaleza foi erguido, então, na região alagadiça da atual Otávio Bonfim, o primeiro campo de concentração brasileiro. Ali ficaram confinadas cerca de 8 mil pessoas com alimentação e água controladas e vigiadas pelos soldados do Exército. Naquele mesmo ano de 1915, após incentivos para que os retirantes migrassem para a Amazônia, o curral humano foi desativado.

Cerca de 17 anos mais tarde, em 1932, foi a vez de reabrir o campo de concentração de Otávio Bonfim e criar novos currais humanos. Naquele ano, outra grande seca castigou novamente o sertão nordestino, fazendo com que, mais uma vez, milhares migrassem para os grandes centros urbanos. Após dezessete anos, nem o governo federal, nem os governos estaduais haviam se precavido para diminuir os efeitos da seca e a solução, novamente desumana, passou a ser a criação e ampliação dos campos de concentração nordestinos.

Vítimas da seca. Crianças e adultos jazem ao lado da linha férrea que levava para o Campo de concentração de Senador Pompeu. De forma assustadoramente parecida, as cenas brasileiras dos currais humanos lembravam bastante os campos de concentração nazistas.

Vítimas da seca. Crianças e adultos jazem ao lado da linha férrea que levava para o Campo de concentração de Senador Pompeu. De forma assustadoramente parecida, as cenas brasileiras dos currais humanos lembravam bastante os campos de concentração nazistas.

Pela segunda vez, foram erguidas regiões cercadas por arames farpados e vigiadas diariamente por soldados para confinar os nordestinos afetados pela seca. Corpos magros, de cabeças raspadas e numeradas se apinhavam aos montes dentro dos cercados de Senador Pompeu, Ipu, Quixeramobim, Cariús, Crato (ou Buriti, por onde passaram mais de 65 mil pessoas) e o já conhecido Otávio Bonfim, os maiores currais humanos instalados no Brasil para conter a massa castigada pela seca dos anos de 1915 e 1932.

Poema “Campos de Concentração no Ceará”, por Henrique César Pinheiro.

No Estado do Ceará
A exemplo do alemão
Houve por aqui também
Campo de concentração
Lá era pra matar judeu
Aqui o povo do sertão.

Na seca de trinta e dois
Criamos uns sete currais
Para evitar que famintos
Criassem problemas sociais
E pudessem invadir
Na capital seus mananciais.

Currais foram construídos
Em Senador Pompeu, Ipu,
Quixeramobim e Crato,
Fortaleza e Cariús.
Fortaleza teve dois
Otávio Bonfim, Pirambu.

Pessoas foram confinadas
Como bando de animais.
Tinha a cabeça raspada
Sacos de açúcar, jornais
Era o que lhes serviam
Como vestes mais usuais

Sem nome, ou identidade,
Chamados por numerais.
Desta maneira estavam
Registrados nos anais.
Só se comia farinha,
Rapadura nos currais.

Toda essa gente foi presa
Sem ter crime praticado
E para isto bastava
Somente estar esfomeado.
Pedir prato de comido
Que seria logo enjaulado.

E controlados por senhas,
Pelas forças policiais.
Quem entrava não saía,
Senão pros seus funerais.
Sessenta mil lá morreram.
Nos registros oficiais.

Para aqueles locais, todas
Pessoas foram atraídas.
Com promessas que seriam
por médicos assistidas,
Que teriam segurança
E fartura de comidas

Experiência que houve
Somente aqui no Ceará.
Que se iniciou em quinze
Naquela seca de torrar
Depois disso os alemães
Trataram de aperfeiçoar.

Alguns campos projetados
Para abrigar duas mil pessoas
Dezoito mil chegou alojar.
Presos por vilões e viloas,
Felizes os governantes
Ainda cantavam suas loas.

Em Ipu todos os dias
Morriam de sete a oito.
A maioria era de fome
E até por ser afoito,
Nas tentativas de fugas,
Pro que não havia acoito.

Nas décadas posteriores,
Pra mudar essa imagem,
governos criaram albergues
para evitar sacanagem,
mesmo assim pouco funcionou
pois sempre há malandragem.

E o povo nordestino
ainda de pires na mão,
espera de todos governos
pro problema solução.
Agora estamos na briga
pela tal transposição.

Ceará de Terra da Luz
É chamado no Brasil.
Foi nosso primeiro estado
Que escravatura aboliu
Pra isso não foi necessário
Nem mesmo usar um fuzil.

Mas a geração atual
Tem que redimir o erro
De governantes passados.
Não permitir o desterro
De seus filhos pra terra alheia
e muitos acham o enterro.

HENRIQUE CÉSAR PINHEIRO
FORTALEZA/MARÇO/2008
Henrique César
Referências:
– “A Seca de 1877 – 1879“, Fátima Garcia, Fortaleza em Fotos.
– AZEVEDO, Miguel Ângelo. Cronologia Ilustrada de Fortaleza.
– KOSSOY, Boris. Um olhar sobre o Brasil: A fotografia na construção da imagem da nação (1833 – 2003). 1° edição. São Paulo: Fundación Mapfre e Editora Objetiva, 2012. p. 94.
– LESSA, Letícia. Currais de gente no Ceará.
– “Currais Humanos“. Diário do Nordeste
– SÁ, Chico. “Ceará: Nos campos da seca“. Revista Aventuras na História. Editora Abril: 2005.
– Arquivo “O Povo no campo de concentração“. 1932.
Imigração nos Estados Unidos do século XIX: rumo à pobreza

A roda dos enjeitados

Em 1950 a última rodo dos expostos foi desativada no Brasil

Na foto há diversas crianças que foram abandonadas na roda dos expostos (enjeitados), no “Asylo dos Expostos”. Foto retirada da Revista A Cigarra, Ano VI, nº 121, de 1º de outubro de 1919.

Não é de hoje que crianças são abandonadas, porém até o século XIX o termo “criança abandonada” não existia, elas eram conhecidas como “enjeitadas” ou “expostas”.

O abandono infantil persegue a humanidade desde tempos remotos, porém foi somente na Idade Média que a situação começou a ser tratada com mais seriedade. Naquela época a Europa havia passado por diversos períodos de fome, pobreza e sucumbiu à Peste Negra entre os séculos XIII e XIV.

Tais fatores levaram a população a abandonar seus filhos nas ruas e, em algumas situações, até a cometer infanticídios (homicídio do filho pela própria mãe durante seu estado puerperal). Esse estado de calamidade forçou a Igreja e as monarquias a criarem práticas de assistências às crianças expostas. Dessa forma, no século XIII foi iniciado o recolhimento de crianças abandonadas e estas foram entregues às Casas de Misericórdia, onde ficavam também os doentes, mendigos e loucos.

Juntamente ao recolhimento das crianças, a Igreja criou a contraditória roda dos enjeitados ou expostos. Elas eram instaladas nos muros das Casas de Misericórdia e conventos para o recebimento de recém-nascidos abandonados. Após a criança ser colocada numa porta giratória, a pessoa que estava entregando o bebê girava a roda e puxava uma corda com um sino para avisar que uma criança acabara de ser abandonada.

A prática, então, se espalhou pela Europa e chegou ao Brasil com a colonização. A quantidade de crianças deixadas sozinhas nas ruas de Salvador fez com que fosse feito um pedido junto ao vice-rei para a instalação de uma roda dos enjeitados aqui em solo nacional. Dessa forma, em 1726 o Brasil recebeu sua primeira roda. A partir daí, as rodas foram largamente utilizadas na colônia até que em 1950, com a prática já em declínio, a última roda dos enjeitados— instalada em São Paulo — foi desativada.

A pobreza era o principal motivo para o abandono das crianças, como é possível ver em bilhetes e cartas deixadas junto aos bebês, por exemplo:

Pelas chagas de Cristo
Lhe peço guardarem este papel
Junto com meu filho que, eu, se deus
Me der vida e saúde, daqui alguns meses darei
O que eu puder para encontrar meu filho.
Peço não o darem sem que levem uma carta
igual a esta e o retrato também
Se morrermos sem nos vermos mais, que Deus nos junte nos Céus
Adeus Meu Filho pede a Deus por mim, Adeus.” — Tradução: Maria Nazarete de Barros Andrade – Coordenadora do Museu e Capela da Santa Casa de Misericórdia de SP

Referências:
– “O que foi a “Roda dos Expostos”?”. Museu Eng. Augusto Carlos Ferreira Velloso. Santa Casa de São Paulo.
– VALDEZ, Diane. “Inocentes expostos”: o abandono de crianças na Província de Goiás no século XIX”.
Universidade Federal de Goiás, 2004